Tantas vezes você reclama de pessoas ou situações e não se dá conta de que nem sempre agiu como deveria. @elisaluciani
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Se você não me quiser.

“Se você não me quiser, reserva o tempo e as precauções pra outra pessoa. Me deixa meio quieta no meu canto e para de puxar muito assunto assim, como se você se importasse mais do que o normal, como se você tivesse que me ver bem de qualquer forma por conta de algum interesse romântico que te deixasse extremamente triste e vulnerável se eu também estivesse. Deixa que eu me refaço sozinha sem riscos de má interpretação. Deixa que eu prefiro ficar num canto ouvindo toda a discografia do Death Cab for Cutie, pensando nas formas de me trancar no quarto por dias sem ninguém encher o saco e tudo mais. Deixa que eu vivo nessa minha de ser sozinha e vou indo que é bem melhor do que achar que eu tenho a sua companhia.

Se você não me quiser, esquece que a nossa discografia combina tanto e não deixa isso transparecer a toda hora. Não sorri demais e nem fala de mim pros seus amigos. Não diz que eu sou bonita e que tem tanta gente lá fora me perdendo por entre os dedos porque não consegue me ver do jeito que você vê – e você acaba sendo só mais um que tá lá fora me perdendo também por entre os dedos, mas você me vê e isso deve ser pior ainda pra mim. Friendzone de romance que podia dar certo machuca mais.

Se você não me quiser, é melhor parar de mexer comigo. De dizer que se lembrou de mim quando nem eu mesma me lembraria. De brincar de ciranda comigo e com meus olhos. De dizer que tá aqui pra sempre e deitar no meu colo sem tirar as mãos da minha coxa. É melhor deixar bem claro que a gente tá procurando no outro alguém diferente – ou até tá procurando a mesma pessoa, mas pra fins diferentes. E o fim é sempre aquela bosta confusa que constrange quando fica claro.

Se você não me quiser, para de dizer que eu sou especial. Minha mãe me diz que eu sou bonita, meu pai me chama de responsável, as amigas me acham legal, mas especial eu só sou pra você mesmo. E isso acaba fazendo com que eu me sinta especial sempre que você me dá as mãos e diz: vamos lá, você pode. Eu posso? Então me diz que eu posso e que você quer. Diz que eu posso mesmo, desse jeito, agora.

Se você não me quiser, ah, diz que não quer. Diz que os beijos roubados foram bobeira e que a sua agenda só tinha lugar pra mim porque você tava carente e precisava me ver por isso. Diz que as minhas amigas são umas idiotas e que gostaram à toa de você. Diz que eu não tenho motivo pra ficar preocupada porque alguma garota vai com você pra casa e vai dormir agarrada com você de uma forma melhor do que a que eu faço. Se você não me quiser, não me quebra inteira, não me deixa de quatro, não permite que eu me entregue por completo. Porque  eu não sei descer ladeira com o freio engatado. E daí, um dia, você vai embora e eu vou me perguntar, sem que eu entenda nada, já que você parecia tanto me querer…”

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(Entre todas as coisas - ps: adaptações de gênero)

Entendeu alguma coisa? Não? Ok, perfeito assim. Se você entendesse, eu ficaria triste por ter conseguido explicar algo sem explicação. E é isso: de onde eu vim, sentimentos são inexplicáveis, mas explicam todo o resto. Amor é um sem sentido sentir e dar sentido a tudo. E este tudo, agora, é você. Juro.

..Porque eu não sei descer ladeira com o freio engatado. E daí, um dia, você vai embora e eu vou me perguntar, sem que eu entenda nada, já que você parecia tanto me querer…

“Sonhei em te contar como a minha infância foi boa. E em como foi triste quando meu avô faleceu. Eu queria te contar da antiga casa de madeira da minha avó. E queria te fazer rir ao falar que eu e meus primos, com meias nos pés, usávamos o assoalho da casa como uma pista de patinação. As minhas férias eram as melhores possíveis. Na verdade, eu ainda quero. Eu quero te contar. Porque meu bem, eu quero sentir a mesma sensação que eu sentia enquanto patinava, mas tem que ser você. Eu sou diferente de todas as outras. Sou careta e ridícula para muitos, mas apenas faço o que meu coração manda. Não consigo ser diferente. Eu quero te cuidar. ‘Dá cá teus olhos e um cado do coração.’ Eu preciso te contar.”

Pra você gostar de mim.

“Eu arranho as cordas vocais de um jeito desafinado só pra te irritar. Eu canto sobre a gente num karaokê em algum lugar da Augusta e brindo a você num copo pequeno daqueles de bar. Eu deixo de esconder a minha timidez por trás das lentes grandes dos meus óculos e deixo tudo ficar embaçado só pra sentir a sua respiração mais de perto. Eu tiro esse aviso bem grande de “por favor, me ignore” de frente da minha camiseta – e eu só uso isso por medo de tropeçar ou gaguejar caso você resolva vir falar comigo qualquer dia desses. Pra você gostar de mim eu imito Cazuza e crio uma ideologia pra gente viver a dois. Que solidão que nada. Eu quero é que um dia desses nasça logo pra gente ser feliz.
Pra você gostar de mim eu confundo o tempo. Faço o nublado virar chuvoso e uso a desculpa pra te aquecer. Ligo o ar-condicionado no máximo e digo que não tem cobertor, mas tem pipoca, um filme qualquer e eu pra te fazer companhia. Eu deixo você me usar como segunda pele, que é pra eu te sentir mais minha. Ah, e brinco de gangorra com você lá no alto. Prometo ser legal e não te deixar suspensa por muito tempo. Que é pra te tirar de evidência quando as suas bochechas corarem e você já não quiser mais brincar. Compro chocolate belga e te sujo toda de brigadeiro de panela pra gente rir junto depois. Pra você gostar de mim eu paro até de combinar vermelho e verde pra dar alguma tranquilidade no nosso tom. Eu apronto uma serenata, uma passeata ou alguma forma nada discreta de me declarar. Monto palco, estudo cena após cena e dispenso o curso pra me mostrar pra você. Sinto e o que eu sinto não precisa de interpretação – nem minha, nem das palavras que eu jogo por aqui e por ali. Vomito espontaneidade porque duvido que alguém goste tanto de você assim, exageradamente verdadeiro como eu. Se achar nojenta demais a metáfora, eu não retiro o que disse. Mas pego um pano pra limpar as bordas, os excessos e deixo com você só o que você for capaz de carregar. Eu aguento a carga por mim e por você, desde que você não considere um fardo durante o tempo. Desde que você fique porque gostou do que viu e porque sentiu no peito aquela angústia chata que pede pra ficar, e fica martelando sem parar na cabeça. Eu mostro que a gente não foi feito um pro outro – e por isso mesmo é que eu antecipo a fala pra te acalmar. Eu prometo que vai ficar tudo bem – na maioria das vezes. Pra você gostar de mim eu dispenso o felizes para sempre e tento fazer com você o felizes por agora.
Pra você gostar de mim eu tiro a máscara. Me desnudo sem pudores na sua frente. Me mostro cru e com todos os defeitos do mundo que podem ser encontrados em alguém. Deixo você me conhecer melhor e nem precisa fazer tempo de experiência. Pulo as primeiras impressões e jogo com as segundas, as terças, quartas e assim por diante. Estendo a semana e estendo também as minhas desculpas pelo exagero da declaração. Eu te deixo ver meu lado mais sensível. Meu lado menos ogro e mais doce. Pra conquistar os sorrisos que você me der e permitir que você entenda que homem também chora e só chora se tiver um colo de mulher pra descansar a cabeça nos dias difíceis. Compenso a falta de alguma coisa com mais atenção e com mais carinho. Pra você gostar de mim eu mostro que caras como eu existem aos montes por aí e você só não vê direito porque tá com pressa ou porque não olha além das calças meio largas demais ou do cabelo bagunçado deles. Alguns mais tímidos que outros, outros mais enrolados que alguns poucos. E pra você ficar por mim eu escrevo essa carta. Mal pontuada e meio atrapalhada. Que é pra você já entender o meu jeito e os meus modos desavisados. Que é pra te dar algum motivo pra ficar comigo – caso eu consiga roubar algum riso abafado ou sorriso de lado antes de chegar ao ponto final.”

(Entre todas as coisas)

Não é culpa sua.

“Não adianta. E eu não sei se é conspiração cósmica ou azar do destino, mas não adianta. Você não vai gostar de alguém só porque alguém gosta de você. E olha que pode ser aquele seu tipo perfeito, feito realização dos seus rascunhos detalhados sobre como seria o homem ou a mulher da sua vida. Pode ter todas as qualidades, os traços físicos, os olhos claros, os quase dois metros de altura, o piercing no nariz e o que mais você tiver imaginado. Não adianta muito.
E daí te culpam por isso. Por não ter tido estalo. Por não ter tido encanto. Por não ter rolado aquele brilho nos olhos ou aquele friozinho na barriga que você sempre sabe que sente quando conhece alguém com potencial pra acampar na sua vida antes de entrar de vez na sua casa. Culpam você e culpam o seu dedo podre. Porque você só gosta dos tipos errados, dos tipos não correspondidos, dos tipos imaginários, dos tipos de tempos desconectados e de todos aqueles tipos que, supostamente, você não deveria gostar. Pior ainda é quando te culpam por não gostar de quem gosta de você. Será que eles não percebem que dói tanto na gente quanto em quem a gente não gosta nesses casos? Porque parece que a gente faz por mal. Que a gente espera mesmo sofrer ou viver de desamores, vagando por aí e se alimentando dessa coisa vazia de relacionamentos sem futuro. Porque culpam a gente como se fosse fácil ver quem nos quer bem indo embora, com as mãos vazias – e a gente com o coração na mão quando sabe que podia ter feito alguém feliz.
Ele ou ela te ama. Bacana. Mas você vai fazer o que? Vai viver o amor do outro (e pelo outro) e abrir mão do seu só porque alguém diz que você pode escolher amar alguém se empregar um pouco mais de esforço? Às vezes até funciona, às vezes é só perda de tempo e estrago desnecessário de coração. Não se tomam amores que não são nossos. A gente não pode pegar e viver o sonho de alguém, muito menos o amor que não é criado pela gente. E haja dedo podre. Será mesmo? Ou será que a gente não tá só tentando, como todo mundo, encontrar alguém no meio desse vasto espaço que faça algum sentido perto da gente? Sou inclinado a pensar que é essa a opção e que a gente não é tão egoísta assim. Se bem que, no amor, não rola muito ser altruísta quando a gente não consegue amar alguém. Amor que pede esforço pra sentir não é amor. É alguma outra coisa e pode até ser bonita, mas não é amor.
Então, se for pra amar alguém de volta, que seja de um amor que partiu de você. Que foi criado ou conquistado e que mexeu com você de alguma forma que tenha te feito sentir além de uma boa companhia. A gente vai continuar tentando e sabe-se lá se um dia chega ou não. Sabe-se lá se um dia a gente acha ou se perde de vez (e se acha perdido). Mas pega essa culpa que você sente por achar que tá se esforçando pouco e esquece. Pega essa coisa que tentam empurrar pra você como uma necessidade de aceitar o que vem só porque pode ser bom ou legal e pensa que amor não foi feito pra contentamento. É pra se encantar e pra ter algum sentido além dessa coisa do gostar de alguém. Pensa naquele trecho do As Vantagens de Ser Invisível e leva como lema, porque a gente realmente aceita o amor que a gente acha que merece.  A verdade é que “the greatest thing you’ll ever learn is just to love and be loved in return”. E relaxa. A culpa não é sua por querer ser feliz com um amor que seja seu.”

(Entre todas as coisas)